“Fábrica de Criadas” de Afonso Cruz
Reviewed by Carlos Nogueira (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)
Cruz, Afonso. Fábrica de Criadas. [S.l.]: A Bela e o Monstro / Rapsódia Final, Lda. / Público-Comunicação Social S.A., 2025. ISBN: 978-989-9131-67-5.
Cada novo romance de Afonso Cruz é, sem exagero, uma obra-prima. Fábrica de Criadas, que o autor insere no género do romance-folhetim, não contraria este juízo crítico. Aqui que se reconhece uma voz autoral que habita universos ficcionais em cuja conceção o realismo mais concreto se articula com erudição e espiritualidade. Em 261 capítulos com título, escritos “dia a dia, com o espírito que exige o formato [o folhetim], ou pelo menos com a tentativa de o fazer” (557), como se lê na “Nota autoral”, acompanhamos personagens, situações e acontecimentos que se situam num “tempo narrativo de cinquenta anos, mas distribuídos em espelho: vinte e cinco anos antes da Revolução e vinte e cinco anos depois, para favorecer o contraste e a mudança social que Abril permitiu” (557).
Na “Introdução” de dois parágrafos, Cruz confidencia-nos que esta história é a sua versão “romanceada” (13) de antigas “memórias pungentes, duras, sendo uma delas profundamente bela na sua tragédia” (13). Memórias que ele ouviu a quem viveu «episódios de infância, ambientados num antigo lazareto que se tornou depois um espaço de acolhimento “para crianças desfavorecidas” (13). Assim discretamente orientados pelo autor, avançamos para a leitura do primeiro andamento, “1. A coreografia da infância”, em que logo somos envolvidos pelo ritmo diversificado e encantatório do livro, que começa por nos apresentar pessoas comuns, duas crianças e um pai, este que as olhava, aquelas que corriam livres pela casa, entregues ao ser-se criança, “corpos esguios e ternos, ainda intocados pelos dias tristes que a maturidade traria como cenário quotidiano, pela desonra da maldade arquitectada e das inevitáveis decepções que sofremos e fazemos sofrer” (17).
Está dado o mote para a narração de uma história em que a realidade pessoal e histórica (como o modus vivendi no Asilo 28 de Maio, que antes fora um lazareto, e o seu desabamento, a 6 de janeiro de 1958) se entrelaça com uma ficcionalização enriquecida com uma contínua e equilibrada discussão filosófica, cultural, histórica, política, religiosa e antropológica. Sem as digressões das personagens e do narrador (as da irmã gorda, e não só, são sublimes pela lógica, pela beleza poética, pelo esplendor das formulações), este romance não seria um romance de Cruz, que Miguel Real, em 2012, perante A Carne de Deus (2008), Enciclopédia da Estória Universal (2009), Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (2010), A Contradição Humana (2010), A Boneca de Kokoschka (2010) e O Pintor debaixo do Lava-Loiças (2011), não hesitou em definir como “um dos mais intelectuais dos novíssimos autores”.
O discurso deste romance-folhetim, que eu vejo também como um romance-ensaio, alterna entre a indagação e a profundidade filosófica, o lirismo, a delicadeza e o humor. Veja-se o início do segundo capítulo, “A extracção da infância”: “Brincar é uma forma de elevação, de ensaiar a vida e rir das quedas, lição que acabará esquecida para a maior parte dos adultos, que substituirá a possibilidade de rir de alguns dos seus reveses pela tristeza crua ou pela amargura ou pela apressada imposição da idade adulta como uma necessidade” (18). A estas palavras do narrador seguem-se outras de um alegado autor, o professor Borja, personagem num outro livro magistral de Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012). Como sempre acontece na escrita deste escritor profundamente inventivo e cerebral, outros nomes desfilam ao longo do livro: uns reais, de filósofos, cientistas, escritores, etc., outros fantasiosos, os quais fazem deste romance uma enciclopédia de casos da vida mais real, narrados e comentados com a desenvoltura (e com muito trabalho de leitura e intelectual, certamente) de um autor que tem a capacidade artística e intelectual de ver tudo em interligação e em coexistência.
Por isso mesmo, as personagens que podem parecer secundárias não o são, verdadeiramente, ou são quase tão importantes quanto as principais (Sãozinha, depois São, a irmã gorda, Carlos, dito o Urso, etc.). Esperança, o Calvo, Flávio, entre outras, participam na construção deste universo ficcional com a sua personalidade e as suas contradições, com as suas vozes únicas e paradoxais em si mesmas e em relação às demais. Daí estarmos perante um romance polifónico, no sentido que Bakhtin dá ao romance de Dostoiévski: romance cujas personagens são indivíduos que se revelam em diálogo com um tu (que pode ser, e é, muitas vezes, o próprio eu), contraditoriamente, multiplicadamente. Polifonia, portanto, não simplesmente enquanto diversas vozes. O resultado é uma multiplicidade de vozes que não estão sujeitas a uma ideia única: uma polifonia de vozes que se misturam, se inspiram reciprocamente, se contradizem. O autor entra no diálogo, ao mesmo nível do das personagens, consciente da sua vontade de construir uma obra ideal, com o mundo todo dentro; mas consciente também dessa impossibilidade, que é, em parte, suprida pelo conhecimento que Cruz tem da diversidade humana e da multiplicidade das naturezas humanas, com cada pessoa-personagem a ser um espaço inapreensível de virtudes, defeitos, manias, fraquezas, violência, brandura, arrogância, polimento, exibicionismo, etc. Há um diálogo sem fim, persistente, profundo, em direção às questões humanas que não podem ser resolvidas (o que é a vida, o ser humano, a sociedade, o mal, o bem, a política, a religião, o livro, a literatura, o conhecimento...).
Por isso mesmo, também, enquanto universo polifónico, é um livro com outros livros e escritos dentro: excertos bíblicos, como o livro de Job, do Antigo Testamento; excertos de Marx, cujos Manuscritos Económicos e Filosóficos entram diretamente no enredo, pela mão da irmã gorda, ela própria autora, como já notei, de um livro de que são citadas partes e de cartas anónimas enviadas às raparigas que habitavam o Asilo e foram distribuídas por outras instituições, após o colapso do edifício); etc. Um livro que é um hino aos livros e uma defesa da literatura, feita no jeito radicalmente lúdico e radicalmente sério a que Cruz nos habituou: uma das personagens, Esperança, a irmã de Sãozinha, casa com um homem que lê; um homem que a princípio ela estranha e não considera um verdadeiro homem, porque não a castiga, não lhe bate (ela que chegara a invejar violentamente a irmã, por a saber estar a ser preparada para ser criada, enquanto que ela vivia fechada em casa, criada apenas do pai). Também ela passa a ler (romances-folhetim, no sentido clássico do termo), e é dela uma explicação, que São há de também assumir, para os mistérios da literatura, que vale como uma hermenêutica geral para a compreensão do que nos atrai na leitura literária (e não só):
O marido da Esperança, sentado num cadeirão, levantou os olhos do jornal. Ia dizer algo avisado sobre o destino, mas desistiu. Há muito que a Esperança se familiarizara com aquela 320 delicadeza tranquila. O marido tinha-a ensinado a ler — ou a ler sem se atrapalhar e precisar de seguir as frases com o indicador e sem necessitar de soletrar as palavras e dizê-las depois em voz alta — e ela mergulhou com alguma felicidade num mundo que nunca entendera: o que fazem as pessoas em silêncio com um livro nas mãos? Como poderia aquilo ser bom, compensador, gratificante, estar para ali calado, sentado, parado a olhar para páginas cheias de letras? Tem de ser muito aborrecido, não é como dançar, namorar ou comer. Quando aprendeu a ler, a Esperança entrou nesse mundo construído em silêncio, passou a rir e a chorar durante a leitura, como se fosse real. Como é que uma pessoa ri e chora de coisas que não estão a acontecer, que não são verdade, que se sabe serem mentiras?, interrogava-se a Esperança. Sentia aquilo que as personagens sentiam. É tudo mentira, mas o que sinto é verdade, concluiu um dia. (320)
Toda a linha diegética do romance Fábrica de Criadas é atravessada por vidas atormentadas pela violência doméstica e de género, que não se sabe – porque as variáveis são inúmeras – se surge mais por indução de outras violências anteriores (a violência ideológica, política e patriarcal, desde logo) ou mais por escolha pessoal. Dito de outro modo: sem maniqueísmos, este romance investiga aquilo a que em filosofia se chama a vontade boa e a vontade má. Um exemplo paradigmático, que Afonso Cruz elege para comentário no romance, é o do cabo apontador Alves Costa, que no dia 25 de abril de 1974, em pleno processo de golpe de Estado, desobedeceu a quem lhe ordenava que disparasse sobre a coluna de Salgueiro Maia:
Um pequeno gesto de sedição, aqui assombrado pela ameaça de morte, dá verdadeiro sentido ao princípio de Musil: os pequenos gestos, se somados, resultam numa grandiosidade incomparavelmente maior do que o maior feito épico. Ou segundo uma formulação mais antiga, de Plutarco, referindo-se a Alexandre, e dando uma alfinetada a Homero: nem sempre a virtude e a vileza se manifestam nas acções mais imponentes, muitas vezes um pormenor, uma palavra ou uma trivialidade mostram melhor a natureza humana do que batalhas sangrentas e cercos de cidades” (360).
No sentido oposto, temos Glória, uma menina do Asilo que, induzida e seduzida pelos prazeres do mal (se mais “banal” ou mais “radical”, na aceção de filósofos como Kant e Hannah Arendt, não pode ser discutido no espaço desta recensão), se compraz a atormentar, com grande calculismo, o dia a dia de Sãozinha.
No título, Fábrica de Criadas, começa a força deste romance, cheio de tragédias, a começar pela da Maria da Conceição, Sãozinha, que sai de casa com o pai, comovida perante a antecipação de uma felicidade rara, para, no final de um breve passeio, terminar num asilo lisboeta para crianças pobres. O pai entrega-a e nem olha para trás. Sãozinha está destinada a um ofício, o de ser “criada numa casa de uma família abastada” (123), como as demais “raparigas” que ali vivem. O encontro com a “irmã gorda”, Generosa de seu nome de batismo, outra das personagens inesquecíveis de Cruz, transformar-lhe-á a vida. Com ela aprenderá, se não o gosto pelos livros que se propõem mostrar o sentido da vida (como o que a própria irmã gorda escreve e, para não causar escândalo, é publicado com o nome do professor Espinosa), o gosto pela leitura de romances ditos populares.
Um livro cheio de tragédias, dizia eu: das mais individuais às mais coletivas (o país amordaçado, vigiado, derreado perante o ditador), num (des)concerto que o romance representa e comenta em episódios dos quais ressalta a complexidade da natureza humana como enigma insolúvel, mas nem por isso suscetível de intimidar as personagens e o autor que vislumbramos por detrás delas. Um romance também cheio de esperanças: as que se inscrevem na utopia que cada personagem constrói para si e para os outros. O livro termina precisamente com a realização de uma utopia: São, a Sãozinha que estava destinada a ser criada de servir (e não o foi: ou foi-o de outro modo, ao se tornar datilógrafa), perde o medo da água e no dia seguinte poderá dar banho à neta, que lhe é entregue por Moisés, a quem ouvimos estas palavras, as últimas em discurso direto: “Toda a vida é isso mesmo, fomos expulsos do Jardim do Éden e tudo o resto é tentativa de regressar, não ao mesmo paraíso, a um paraíso melhor, pois se não for para ser melhor não estamos aqui a fazer nada” (554).
O que imediatamente se segue, o derradeiro parágrafo do livro, escrito no estilo solto próprio de Cruz, é uma síntese perfeita da pacificação (provisória, ainda assim, com certeza) de uma personagem que não teve infância e sofreu numerosas e dolorosas privações e perdas (pacificação, também, do regressado Moisés, que, tendo emigrado para França após o casamento de São e tendo-se feito escritor, que assinava sob pseudónimo, era lido por ela, numa das muitas coincidências que entram na trama deste romance, que nisso é um autêntico romance-folhetim): “A São pegou nela e embalou-a, encostou a cabeça ao peito do Moisés. E agora?, perguntou ela, e agora, disse ele, temos a possibilidade de ver uma tempestade terminar, vamos fazê-lo juntos. A mansidão da madrugada há-de ser proporcional à fúria da noite. No dia seguinte, a São deu banho à neta, sem medo de que se desfizesse como uma boneca de papel” (554).
Afinal, “O significado da vida não é ser feliz, é lutar pela felicidade” (426), disse à amiga São a religiosa Alexandra (o último nome da irmã gorda). Face a esta máxima e para concluir, volto ao ponto do universo de Afonso Cruz, neste e noutros romances, enquanto polifonia e dialogismo: Fábrica de Criadas termina não com uma voz única e com uma verdade que se sobrepõe a todas as outras, como pode parecer, mas antes com uma voz que se opõe a outras vozes. Por dialogismo e por polifonia, não se entenda apenas um universo com muitas vozes e muitos diálogos (enquanto forma de expressão): entenda-se um complexo plurivocal em que todas as vozes têm o mesmo valor, inclusive aquelas que consideramos erradas ou eticamente reprováveis. Como exemplo, cito a parte em que Carlos (o Urso) lê um excerto do livro escrito pela irmã gorda, um livro que “livro prometia tudo, até desvelar o sentido da vida, todo ele, e no entanto vedava-lhe a entrada, como o querubim e a espada de fogo que Deus decidiu colocar à entrada do Éden para que nenhum humano ali conseguisse regressar” (361). Carlos não entende o sentido de palavras que são uma síntese do que cada vez mais não poucos cientistas e pensadores sustentam ser a constituição básica do ser humano: um ser racional apenas no sentido de ter pensamento abstrato e lógico, porque o que o move, antes de mais, no dia a dia, nos casos humanos, são os sentimentos e as emoções, que constituem com a razão um todo complexo e indivisível, em que aquela existe mais para justificar opções do que para as tomar, em primeiro lugar): “O argumento racional, lia o Urso, é um subproduto da emoção: qualquer convicção é, na sua substância, límbica, primeiro há uma inclinação intuitiva em relação a determinado assunto e posteriormente é montado o arrazoado necessário para corroborar essa inclinação prístina” (361).