há sílabas que machucam me maceram a língua

há sílabas que machucam me maceram a língua

onde procuras humedecer a fome

saciar a líbido

eu seca de afetos 

de paisagens caseiras

a boca lacerada por palavras 

estrangeiras

que tu salivas agachado em mim

... sopros que sufocam e eu

muda mudada 

mole mortiça

sepultada numa cama longe 

de mim 

de casa 

erguida de muros e ventos distantes

murros que desferes e ferem

as sílabas saudosas 

da minha infância   

agora mugidas em sonhos sumidos


ruminas-me os nervos

o corpo sem teto

dores silvando no sussurro silvado

dos motores a jato

a lágrima languida

caindo

em gagos acenos

à janela emborralhada

de um avião sem asas

no qual parti

e parto sempre que chegas

em busca do tempo

do templo perdido

e parto-me 

cada vez que as tuas botas enlameadas

me trazem o odor a terra molhada

do quintal 

do meu país

dos meus pais

que sorriem na tela 

dos anos amarelecidos


pesa-me a bagagem 

que trago

o peso do teu corpo

das tuas mãos calosas 

esganando 

o rumorejar dançante 

dos eucaliptos de outrora 

embalando a noite

meus medos de menina corajosa

eu acovardada

o gume da tua voz

golpeando-me os dias

o cordão umbilical

o pulso sem vida tombado 

no assombro do teu púbis assoberbado 

o ranger da cama dos dentes 

abrindo a porta de mim

quando criança 

a porta do quarto da minha infância 

que meigamente chia 

no fechar de beijos 

tenros e ensonados


a marcha nervosa dos motores 

                                                                      a passar

o infernal formigar 

dos pés 

das gruas

agitam-me os gestos o sono o mar

que abraça os verões da menina saltando

com o sol nos olhos dos pais a olhar

e eu turvada 

com o fumo dos carros 

as poeiras pesadas

enterrando-se-me no peito

o teu roncar cavernoso zumbindo nas gruas

todo este agora estrangeiro e estranho 

me polui 

o gosto a língua

o paladar de criança

os totós de menina

o sabor a café a chouriça de sangue

os natais em família

as manhãs de orvalho 

esborratando o lar 

que o canto do melro ecoa

e que a tudo o custo resguardo 

no silêncio restolhar

dos desvãos da memória


Romeu Foz holds a Ph.D. in Studies of the Portuguese-Speaking World from The Ohio State University, and he is currently Assistant Professor at City University of Macau (China). He has published articles in several international peer-reviewed journals as well as poetry and short stories in literary magazines and anthologies.

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